São Paulo
Três candidatos com experiência na área educacional compõem na capital cenário propício ao debate de propostas para melhorar o ensino na maior cidade do Brasil. Resta saber se a preocupação perdura depois da eleição
Carolina Freitas e Thais Arbex
Fernando Haddad, Gabriel Chalita e Alexandre Schneider
(FuturaPress/Fotoarena/Marcos Rosa)
Desde que o Brasil voltou a eleger seus governantes pelo voto direto, a
educação sempre figurou entre as prioridades de todos os candidatos a
qualquer cargo executivo. Passados a campanha e o dia da votação, porém,
a extensa lista de soluções genéricas acaba, invariavelmente,
engavetada. E as dificuldades em sala de aula, continuam as mesmas. As
eleições deste ano na cidade de São Paulo têm uma chance rara de mudar
essa história. Pela primeira vez, o tema está realmente no centro do
debate político. Entre os candidatos à prefeitura paulistana estão três
homens da educação: o ex-ministro Fernando Haddad (PT), o ex-secretário
estadual Gabriel Chalita (PMDB) e o ex-secretário municipal Alexandre
Schneider (PSD), que concorre como candidato a vice de José Serra
(PSDB). O site de VEJA analisou o que cada um deles fez – e deixou de
fazer – quando esteve à frente da gestão educacional em cada uma das
três esferas de poder. Confira em detalhes na arte ao fim do texto.
Com tamanha concentração de especialistas em educação no mesmo pleito, não é de admirar que o primeiro embate direto entre os candidatos
desta eleição tenha se dado justamente em torno de um dos mais graves
problemas da capital: a falta de creches. Haddad e Schneider travam uma
guerra de versões a respeito de um pedido feito pelo então secretário
municipal ao ministro para inclusão da cidade em um programa federal de
construção de creches. O petista diz não ter recebido a solicitação, mas
Schneider assegura tê-la enviado. De certeza, há em São Paulo uma fila
de 123.000 crianças esperando por uma vaga. A gestão de Schneider, sem
apoio do governo federal, avançou, mas não cumpriu a promessa de zerar o
déficit de vagas.
Além de afetar a rotina das mães que precisam trabalhar, a dificuldade
de acesso ao Ensino Infantil tira das crianças um direito fundamental,
garantido por lei. Até os 6 anos de idade, a criança desenvolve
habilidades como a coordenação motora, que a ajudará mais adiante a
desenhar as letras na etapa de alfabetização. “A educação é cumulativa”,
explica Priscila Cruz, diretora-executiva do movimento Todos pela
Educação. “Os governos não percebem a importância estratégica do Ensino
Infantil para a educação. O resultado é que vamos perdendo as crianças
ao longo da trajetória escolar. Sem base, elas ficam cada vez mais
excluídas do aprendizado.”
Maria com o filho Matheus, de 5 anos: sem escola
Matheus Muniz da Cruz, de 5 anos, é o retrato desta realidade. Ele está
na fila da rede municipal de ensino desde 1 ano de idade. Desesperada, a
mãe dele, a empregada doméstica Maria da Conceição Muniz, de 26 anos,
recorreu até ao Conselho Tutelar, mas só conseguiu vaga em uma unidade
muito distante de Cidade Ademar, periferia da zona sul da cidade, onde
mora. “Não tenho quem fique com ele em casa. Sou obrigada a pagar escola
particular. São 140 reais por mês e isso pesa no orçamento”, diz Maria
da Conceição.
Com acurado senso de oportunidade, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e o
governador Geraldo Alckmin (PSDB), assinaram na última quarta-feira um
convênio para ampliação do programa Creche Escola na capital paulista. O
ato foi anunciado no último dia permitido pela lei eleitoral para
transferência de recursos dos estados aos municípios para execução de
obras. O governo do estado destinou 40 milhões de reais para a
construção de vinte centros de educação infantil, criando 4.000 novas
vagas. Em novembro de 2011 um convênio havia destinado o mesmo valor
para a implantação de 22 centros, que beneficiaram outras 4.000
crianças. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, dezesseis dessas
unidades estão com obras em andamento.
Uma das promessas da campanha de Gilberto Kassab em 2008, transformada
depois em meta de governo, era zerar o déficit de vagas em creches. A
cinco meses do fim de seu mandato, a proposta está longe de ser
cumprida. Em entrevista ao site de VEJA,
a secretária municipal de Educação, Célia Regina Falótico diz que não
tem como garantir a solução do problema até o fim do ano. Kassab também
já não parece contar em ver a meta cumprida em seu mandato. “Temos a
humildade de entender que falta muito para ser feito. Espero que as
nossas ações nesses oito anos sirvam de incentivo para que as
administrações futuras possam manter o ritmo”, afirmou o prefeito.
Mas a falta de creches não será o único desafio na área da educação a
ser enfrentado pelo próximo prefeito. O site de VEJA ouviu especialistas
que apontaram os maiores gargalos da rede municipal de ensino. Abaixo,
você confere os principais problemas da educação municipal:
Papel do prefeito - A Constituição determina que os
municípios atuem no Ensino Fundamental e na Educação Infantil. Os
estados cuidam do Ensino Fundamental e Médio e o governo federal, do
Ensino Superior. O que falta no Brasil é uma ação integrada entre os
poderes – como prova o bate-boca entre o ex-ministro Haddad e o
ex-secretário Alexandre Schneider. “Há uma dificuldade de articulação
entre estado e município para atendimento aos estudantes”, afirma o
pedagogo Ocimar Munhoz Alavarse, doutor em Educação e professor da
Universidade de São Paulo (USP).
Em São Paulo, o estado transferiu para os municípios 1,5 milhão de
alunos da rede estadual durante a gestão de Gabriel Chalita. Hoje, a
prefeitura da capital é responsável por 44% dos alunos do Ensino
Fundamental I (até a 5ª série) e 37% dos estudantes do Fundamental II
(até 9ª série). “A criança não é estadual ou municipal. Ela é brasileira
e paulistana”, lembra Priscila Cruz, do Todos pela Educação. A rede
municipal de ensino de São Paulo é o maior sistema do Brasil, com
931.463 alunos, 2.015 escolas de Educação Infantil e 545 escolas de
Ensino Fundamental.
Victoria e sua irmã Mariana: falta transporte escolar
Victoria Carvalho Vitor, de 14 anos, é uma dessas paulistanas. Aluna da
7ª série, ela estuda no Centro de Educação Unificado (CEU) do Parque
Anhanguera, no extremo norte da cidade de São Paulo, a mais de 30
quilômetros do centro da cidade. O CEU foi um modelo criado pela
ex-prefeita Marta Suplicy (PT) e ampliado por Serra e Kassab. A ideia é
oferecer dentro da escola opções de esporte, lazer e cultura para as
crianças. O projeto, no entanto, esbarra em aspectos práticos, como o
horário das aulas do contra turno e a falta de transporte escolar.
“Tem aula de violão, piscina, ballet e teatro, mas eu não aproveito
nada disso porque a minha casa é longe e o tio da perua escolar não pode
me levar e buscar fora do horário normal das aulas. Minha mãe teria de
pagar a mais para ele”, conta Victoria. Ela e a irmã, de 9 anos, estão
cadastradas na fila de espera do transporte escolar gratuito fornecido
pela prefeitura, mas até hoje não foram contempladas. “Minha mãe tem
medo de a gente ficar andando por essas ruas sozinhas.”
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