É a festa da mesmice: a ex-primeira dama continua a mesma; a corrupção continua a mesma. E nós, será que somos os mesmos?
Ricas que pedem na Justiça aumento na pensão alimentícia são sempre
iguais; esse filme a gente está cansado de ver. Não faz muito tempo,
uma socialite foi à TV inglesa chorar miséria porque teve de cortar a
temporada de esqui dos filhos gêmeos — de 22 anos, pasmem — porque o
marido se recusava a aumentar a pensão de 80 mil para 320 mil libras. Na
entrevista, contou todos os podres do ex-cônjuge, os desentendimentos,
as vulgaridades e, sobretudo, detalhes. Londres é conhecida como o
melhor lugar para se divorciar; a moça conseguiu sensibilizar a Corte e
levou para casa 180 mil libras mensais.
No domingo, o Brasil parou para ver Rosane Collor no
‘Fantástico’. Rosane, a jovem primeira-dama que circulava a bordo de
modelitos espalhafatosos de grife estrangeira, que não entendia a
circunspecção e a seriedade que exigia seu não-cargo, que esteve no
centro do escândalo da LBA, que coprotagonizou o grande show-off em que
se converteu aquele governo enquanto todos nós, pobres brasileiros,
tínhamos nossas economias confiscadas.
Ela se disse inocente ao se casar em regime de separação total de
bens (mesmo que viesse de uma família rica e poderosa como os Malta) e
pleiteia o aumento da módica pensão de R$ 18 mil para R$ 40 mil. Uma
senhora vistosa, de saudável cabeleira loura, no auge de seus 48 anos,
luta pela manutenção do alto padrão de vida de que gozou durante a vida
conjugal. Oportuna, aguardou a efeméride dos 20 anos do impeachment para
lançar seu livro de memórias.
A jornalista Renata Ceribelli bem que tentou buscar
naquela conversa uma utilidade histórica ao país, como as revelações de
que Collor e PC Farias se encontravam, sim, depois da campanha e que o
ex-tesoureiro determinava indicações de comparsas de esquema para cargos
públicos. Todo mundo sabe que é verdade, mas isso nunca havia sido
flagrantemente pronunciado por um artista do elenco principal dessa
triste novela brasileira.
Mas Rosane tem noção de show; sua preocupação era dizer que ela e a ex-mãe de santo, hoje convertidas em nome de Jesus, foram ameaçadas de morte;
que os rituais de magia incluíam matança de bichos; que sua postura
fora de dar apoio ao marido que perdia a presidência e pensava em se
suicidar. E que, ó santa Rosane, a crise conjugal deveu-se ao fato de
ela não ter aceitado as indicações de PC para cargos na LBA.
Pelo que foi dito na entrevista, o livro de Rosane será um grande
compêndio de fofocas e curiosidades para alegria das massas. Escapam-lhe
a perspectiva histórica, a importância de expor ao Brasil os erros que
não podem ser repetidos, a necessidade de se revelarem os caminhos e as
entranhas da corrupção endêmica. Rosane não deu seu testemunho na
qualidade de cidadã e de testemunha dos fatos.
O que a deixa indignada, nos olhares que fogem do interlocutor e nas
falas cheias de reticências e incertezas, é o fato de as amigas ricas
ganharem por aí pensões mais polpudas que a dela. A seu
modo, Rosane foi honesta sobre os motivos que a motivaram a dar a
entrevista. Ela não decepcionou; foi coerente com a persona que
encarnou 20 anos atrás. Por uma infeliz ‘jesuscidência’, é a mesmíssima
pessoa. A julgar pelo escândalo Cachoeira e afins, os abusos da
corrupção também continuam os mesmíssimos.
Resta saber se, dentro de nós, também pulsam aqueles caras-pintadas
patrióticos e combativos que o ‘Fantástico’ mostrou na TV. Nesse caso,
seria bom que também nós fôssemos os mesmos para romper essa triste
mesmice de roubalheira que saqueia a integridade do nosso país.

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